Sobre trilhos

BlogMuita gente tem me perguntado sobre a localização desta foto, que compartilhei nas redes sociais. Foi a caminho de Bruxelas.  Não sei dizer exatamente em que ponto foi tirada a foto.

Contudo me lembro de como me veio à mente registrar o momento.

À minha frente, viajavam um garoto e sua avó. Ele na maioria do tempo com os olhos grudados na janela, assim como eu. No meu caso, a paisagem era inédita. Pela primeira vez fazia aquele percurso.  Já ele, eu não tinha a mínima ideia.

Mas a curiosidade e o encantamento pela paisagem que surgia não eram muito diferentes. Se, num silêncio contemplativo, eu assistia às vilas que passavam perante meus olhos na velocidade do trem, o menino também o fazia. Porém, sempre exprimindo suas emoções numa extensa lista de interjeições, quando não, cutucando a avó e lhe fazendo alguns questionamentos, na maioria das vezes sem resposta. Estaria a tal senhora tão cansada que o cochilo lhe era indispensável perante imagens que não lhe passavam de cenas rotineiras? Quem sabe.

E no contínuo movimento do trem sobre os trilhos, as perguntas sem respostas não faziam muita diferença. Pois o rosto pueril seguia colado à janela, com o olhar curioso e ao mesmo tempo despreocupado, curtindo a viagem como se não houvesse parada.

Descemos na mesma estação. Os dois seguiram por caminhos diferentes do meu. E se nunca os tinha visto antes, também nunca mais os vi depois. Mas a lembrança da viagem ficou registrada na foto que, magicamente, duplica a imagem do menino, revelando toda a poesia daquele momento.

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A senha pra vida

meus avósDirijo-me a um serviço público para checar uma informação. Ao entrar no amplo espaço, em cores branca e laranja, noto que várias pessoas aguardam devidamente acomodadas em cadeiras verdes. Olho e vejo que há um painel eletrônico, onde é exibida a senha. Então percorro o meu olhar por todos os cantos em busca de um equipamento para retirar a senha. Como não encontro vou até o balcão e me informo. A recepcionista gentilmente diz: – “é aqui mesmo que você retira e me entrega a senha.”

Sigo para me sentar em uma das cadeiras verdes para aguardar a minha vez. Olho para a entrada do espaço e observo uma senhora de estatura pequena, cabelos curtos e brancos como algodão, um pouco encurvada, mas caminhando com certa segurança. Ela está acompanhada de um garoto, esguio, com pouco mais de um 1,40 metro, que diz: – “Precisa de senha.” E, com atitude, dirige-se ao balcão. A senhora o segue e, em silêncio, aguarda, enquanto ele conversa com a atendente, que lhe entrega uma senha.

Ambos sentam-se em uma das cadeiras verdes para também aguardar atendimento.  E, a alguns metros de distância, continuo a observação. Enquanto a senhora fala, o garoto ouve com atenção. E é nítida a presença de carinho e amor na forma como se tratam.

Não resisto e me aproximo. Não! Não quero bisbilhotar a vida deles. Mas tenho necessidade de saber que laços os unem em tamanho afeto.

Dou um leve sorriso para a senhora e logo sou correspondida. Opa! Então me aproximo e converso rapidamente, antes que a minha senha apareça no painel.

E descubro que eles se chamam Zulmira e Bruno.  São bisavó e bisneto.

Faço questão de demonstrar minha admiração pelo comportamento do garoto. A bisavó também fica lisonjeada: – “Ele sempre me acompanha. É muito atencioso; se vou atravessar a rua segura na minha mão. É uma bênção”.

O Bruno é tímido. Com acanhamento, responde-me que tem 10 anos. E quando o elogio pelo carinho e cuidado com a bisavó, apenas sorri, revelando o uso de aparelho provavelmente para corrigir os espaços largos entre os dentes. 

São cenas assim que fazem o dia da gente melhor. Pois bate uma forte esperança de que as novas gerações possam cultivar o respeito e afeto por todos aqueles que colecionam experiências por décadas vividas. E assim aprender as lições que só podem ser transmitidas, sem pressa, por meio do brilho nos olhos, do abraço carinhoso e de uma boa prosa.

Nota: A ilustração de “Meus Avós”, obra de Lasar Segall. 

Eita coisa ruim

Pintura de João Timane - Moçambique

Navegando nos sites de notícias, leio uma reportagem sobre uma modelo branca norte-americana, casada com um cinegrafista negro. Ela conta que, na Itália, um homem cuspiu no rosto do seu marido. E por quê? Porque ele é negro. Outra matéria fala das ofensas raciais sofridas, por brasileiros, pela jogadora francesa Wendie Renard porque não tem cabelos lisos. E ainda a reportagem de um policial militar que é ameaçado de morte porque pediu o namorado em casamento.

Aí fico pensando como é suja, porcamente suja, uma pessoa que discrimina alguém por sua cor de pele, por sua preferência sexual e por outras coisas que fogem ao padrão que as mentes insanas de certas criaturas acabam concebendo.

Eita coisa ruim, esse negócio de preconceito! Acredito que todos nós temos que cuidar para que aquele sintoma de preconceito que existe em cada um não se transforme em uma doença que contamine nossas relações, nossa convivência pacífica com as outras pessoas.

Até porque as formas de preconceito podem se manifestar de inúmeras formas: pode ser contra negros, orientais, gays, héteros, anões, gordos, magros, albinos, nordestinos, orientais, deficientes, idosos, ativistas ambientais, sem terra, sem teto, cristãos, umbandistas, caipiras e por aí vai… haja lista!

Mas o fato é que o preconceituoso cria um padrão em sua mente doentia onde todas as pessoas têm de ter a mesma cor, o mesmo tipo de cabelo, a mesma condição financeira, a mesma média de altura, os mesmos pensamentos, os mesmos valores, os mesmos gostos, o mesmo credo… e o que é “diferente” desse padrão tem der ser colocado à margem da sociedade e até exterminado.

Se todas as pessoas que são escravas do preconceito parassem para refletir e buscassem uma forma de se libertar desse mal, certamente dariam uma contribuição enorme para a humanidade. Se em cada pedacinho do planeta, as pessoas se tratarem com mais respeito, tolerância e sinceridade, quem sabe essa atitude pode ir ganhando espaço e espalhando mais amor e menos ódio na fugaz aventura terrena.

E que assim, ao invés de perderem tempo se consumindo nessa coisa ruim, que é o preconceito, aproveitem mais o tempo para ser feliz e deixar os outros serem felizes também e jamais ser instrumento de agressão e tormento na vida de ninguém.

Nota: A ilustração é uma pintura do jovem artista moçambicano João Timane.

A realidade custa mais que a banana

Carteira-de-TrabalhoCheguei ao supermercado, exclusivamente, com a intenção de comprar ovos, banana e pães. E só. Como havia saído do trabalho, estava com aquela fominha de final de tarde. Mas lembrei da orientação de especialistas de que é importante você não ir com fome ao supermercado, assim é maior a chance de fazer compras de forma mais racional. E de tanto pensar  no que os ‘especialistas’ orientam, foquei nos ovos, banana e pães. Comprar o necessário e gastar o menos possível.

Terminada a compra sigo para o caixa. E fico com um olho nos produtos e outro na máquina, enquanto a operadora registra os preços. Total: 43 reais. Mais do que esperava.

Ao sair do supermercado, ainda surpresa com o valor total das compras comparado à quantidade de produtos que dividi em duas sacolinhas, embora tudo coubesse em apenas uma, paro e confiro item por item. E o total é isso: 43 reais. Insisto. Mas não tem jeito. Umas bananas, uma dúzia e meia de ovos e alguns pães: 43 reais.

Em conversa com um amigo, ele manifestou o seguinte: “Realmente o alimento está cada vez mais caro. Mas não tem como ficar sem comer… E pensar que tem gente desempregada que não tem dinheiro nem para o feijão”.

Ele tem razão. Primeiro, porque os gastos com alimentação estão cada vez mais elevados. E, também, porque tem muita gente sem condições de comprar o mínimo por não ter sequer salário.

O Brasil tem 13 milhões de desempregados. Fica difícil entender como essas pessoas estão buscando saída para sobreviver.

É triste ver tantos jovens que não contam com o famoso QI (Quem Indica), inclusive recém-saídos de escolas técnicas e faculdades, sem grandes perspectivas de trabalho.

Mas ainda tem outro dado que consegue ser pior que ‘milhões de desempregados’. O Brasil tem mais de 50 milhões de pessoas (dados do IBGE) vivendo abaixo da linha da pobreza! É isso mesmo. Mais de 20% da população não é pobre, é miserável!

Segundo o Banco Mundial, é considerado abaixo da linha da pobreza, ou seja, em condição de miséria, quem tem renda mensal inferior a R$406,00 mensais.

Dramático pensar que uma pessoa consiga sobreviver com R$406,00 por mês, num País onde o valor da cesta básica varia de 500,00 a 380,00, dependendo da região, de acordo com dados do DIESE.  Cesta básica é só uma referência, até porque é um elemento muito vago, já que não se sabe para quantas pessoas é e nem exatamente os itens que a compõem. Mas só pra gente ter uma ideia, vale a comparação.

Agora imagine 50 milhões vivendo com renda inferior a 406,00 no Brasil. Pior que imaginar é saber que isso se trata de pura realidade, num cenário sem horizontes, diante de um Estado sem propostas concretas e cativo de picuinhas e verborreias. E em meio a essa balbúrdia pavorosa, a gente tenta se agarrar a um fio de esperança de que dias melhores virão. Tomara!

Morre mais uma

arte_textoMaisuma

Hoje vejo a notícia de que mais uma mulher morreu por conta de procedimentos estéticos por métodos clandestinos.  Diz uma das manchetes: “Uma jovem de 25 anos morreu na noite desta quarta-feira (24) depois de, segundo a família, passar por um procedimento estético ilegal”.

Faz tempo que este tipo de notícia ocupa os meios de comunicação. Então não é falta de informação. Pois sempre que uma mulher morre pelo mesmo motivo, especialistas em beleza, cirurgiões e até delegados alertam para os riscos, inclusive de morte, desse tipo de procedimento.

E de novo me deparo com a notícia! Será que a informação não é levada a sério? Entra por um ouvido e sai pelo outro? Será que há muita mulher com dificuldades de entender os fatos?

Ou a vaidade e a obsessão por um corpo escultural, dentro dos atuais padrões de beleza impostos pelas mídias, são tamanhas que cegam aquelas que buscam esse ideal de beleza?

As respostas podem ser várias. Mas penso que a liberdade de se ter a forma corporal desejada, pode estar levando muita mulher ao equívoco e ao desespero.

Há de convir que uma malhação, uma atividade física para manter a forma e melhorar a qualidade de vida é sempre bem-vinda. Isso para todos os sexos. No entanto, é preciso também cuidar da mente para, primeiramente, aceitar-se e não se tornar refém de padrões que dificilmente conseguirá se encaixar. É preciso se valorizar como mulher, respeitando a diversidade que a genética proporciona.  Não é o fato de ser desprovida de bumbum ou tê-lo avantajado que a faz melhor ou pior entre todas as mulheres. Muito menos são seios fartos ou pequenos que sintetizam a sensualidade uma mulher.

Cada mulher tem o direito e a liberdade de explorar sua beleza, sua energia e sensualidade em sua essência, naquilo que a natureza lhe dá. Sim, ela pode e tem todo o direito de se beneficiar da medicina e da tecnologia para mudar aquilo que não lhe agrada. Entretanto, o poder e a felicidade de uma mulher não podem e não devem ser atrelados ou limitados a uma estética padronizada.

Há cerca de um século, as mulheres iniciaram uma árdua luta por melhores condições de vida e trabalho, pelo direito de voto, pela liberdade de expressão e, principalmente, por mais respeito. E nas últimas décadas, muita coisa melhorou, não há como negar. Hoje vemos pelo mundo afora mulheres ocupando cargos importantes na política de muitos países.  Sem contar das inúmeras anônimas que também arregaçam as mangas em busca de mais respeito, dignidade e escolaridade.

Diante disto, é triste se deparar com notícias de que ainda existam mulheres presas às exigências de uma sociedade machistas de que toda mulher é apenas fêmea de corpo, mais bunda que corpo, como se não tivessem sentimentos, ideias, opiniões, alma… E no desespero de atender a essas exigências, quantas mulheres acabam colocando em risco sua própria vida, sejam sobrepujadas pelas agulhas de silicone, quando não pela autoestima destruída por não se enquadrar num certo ideal de beleza.

A essas mulheres, fica a solidariedade para que possam descobrir a beleza e o interesse pela vida além dos próprios corpos.

Rosana Antunes

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